Uma indústria da moda justa e sustentável que permita às pessoas prosperarem

Seminário “Migração, Violência Doméstica e Trabalho Análogo de Escravo”

Não é raro escutarmos o termo “trabalho escravo”. Por outro lado, ainda é comum que muitas pessoas não o enxerguem como uma realidade. Para mostrar para a sociedade a importância do combate à essa prática e criar uma consciência na população que é preciso saber a procedência do que compram e o que vestem, o Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI), junto ao Instituto C&A e o Fashion Revolution, reuniu em um evento grandes especialistas para dar luz ao assunto. A intenção é ajudar no combate dessa prática no mundo da moda.

O seminário “Migração, Violência Doméstica e Trabalho Análogo de Escravo” aconteceu no dia 26 de abril e reuniu Carlos Bezerra, deputado estadual, presidente da comissão de Direitos Humanos de SP e autor da lei paulista contra o trabalho escravo (14.946/2013); Fernanda Simon, coordenadora do Fashion Revolution Brasil; Flávio Correa, especialista em Direito do Trabalho pela UniFMU e Governo e Poder Legislativo pela Unesp; Juliana Cardoso, vereadora e vice-presidenta da comissão de Direitos Humanos de SP; e Cláudia Regina Lovato Franco, procuradora do Trabalho e Representante Regional da Coordenação do Conaete (Coordenadoria Nacional de Erradicação e Combate ao Trabalho Escravo) no MPT/SP.

O mote da discussão girou em torno dos cinco anos do desastre de Rana Plaza, ocorrido em abril de 2013, onde um edifício, que abrigava cinco oficinas de costura produtoras de roupas a baixo custo e com condições precárias de seus trabalhadores, desabou em Dacca (Bangladesh) e matou mais de mil pessoas. Mais de 2500 feridos foram encontrados.  

A tragédia deu voz a uma parcela da sociedade que vive sujeita ao trabalho análogo à escravidão na indústria têxtil.  Este é o caso do boliviano Brayan (21), que passou seis meses morando em uma casa com a mulher e um filho em situação precária. Sem seus documentos e sem dominar a língua local, a família sentia muito medo. “Eu não sabia se um dia sairia de lá. Sofria ameaças. Não podia sair no jardim, nem na rua”, conta.

De acordo com Fernanda Simon, coordenadora do Fashion Revolution Brasil, histórias como a de Brayan podem ser combatidas com uma simples pergunta: “Quem fez nossas roupas?”. Fernanda explica que, desta forma, é possível garantir direitos para quem as fez e exigir das marcas condições dignas para os trabalhadores.  

A discussão trouxe à tona o termo “escravidão contemporânea” citado pelo deputado Carlos Bezerra. “Eu via esse tipo de escravidão como algo muito distante. Distante da minha realidade brasileira, paulista, paulistana. Até que quando fui, há 8 anos, compor a Comissão de Direitos Humanos e começaram a chegar denúncias sobre casos de escravidão na cidade de São Paulo em pleno século XXI”, diz o deputado.” A escravidão não foi abolida, ela se modernizou e precisa de mecanismos mais modernos para ser combatida”, completa Bezerra.

A afirmação de Bezerra comprova o quanto o assunto é marginalizado no Brasil e, por isso, a necessidade de políticas públicas que enfrentem essa questão. Ainda faltam fontes de apoio para esses trabalhadores e principalmente mulheres que, além de serem a maioria, ficam ainda mais vulneráveis em situações como esta. “Essa vulnerabilidade acontece pelo simples fato de sermos mulheres”, explica Juliana Cardoso vereadora e vice-presidente da comissão de Direitos Humanos de SP.

“Nosso trabalho é esse. Ajudar essas mulheres.  Queremos dar voz a essas mulheres que não podem falar, muitas vezes por serem ameaçadas. Essas mulheres passam por violência física, psicológica e econômica”, finaliza Ruth Camacho, advogada e ativista boliviana, integrante do projeto “Rodas de Conversa” do CAMI.

O seminário foi realizado na Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania, em São Paulo.