Direitos humanos de porta em porta

Nós, do Instituto C&A, realizamos avaliações frequentes dos nossos projetos porque acreditamos que devemos ser transparentes sobre os nossos acertos e erros e porque queremos contribuir com uma rede de aprendizado dentro e fora da nossa organização. Recentemente, contratamos uma avaliação externa para o projeto do Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI), que promove ações de inclusão social para garantir os direitos dos imigrantes (confira aqui). 

Entre as pessoas que receberam suporte do CAMI está o boliviano Zacarias Saavedra. Ele chegou ao Brasil em situação de extrema vulnerabilidade, em 2005. Hoje, trabalha no próprio CAMI. Sua missão é localizar imigrantes que estejam sendo vítimas de trabalho escravo ou de algum tipo de violência. A trajetória de Zacarias é inspiradora. Representa a história de milhares de imigrantes que chegaram ao país em situação precária e conseguiram, com a ajuda do CAMI, construir uma nova vida.    

Eu fui atraído por uma ilusão. Fui trazido para ser mão de obra barata”
Zacarias Saavedra -

Zacarias tinha pouco mais de 50 anos de idade quando pisou em solo brasileiro pela primeira vez. Havia sido demitido do trabalho de educador na Bolívia, e as perspectivas de recolocação naquele país eram escassas. Deixou para trás tudo o que construíra ao longo de uma vida, a família, a carreira, os amigos. Ao chegar a São Paulo, sua bagagem era formada por uma mala de roupas e uma pasta com documentos pessoais. Em meio aos documentos, estava o que ele considerava seu passaporte para o recomeço: uma folha de caderno com um endereço anotado a lápis. Nesse endereço, encontraria trabalho e moradia.

A realidade, contudo, mostrou-se tão dramática quanto um pesadelo. No local indicado, Zacarias encontrou uma oficina de costura que explora imigrantes e passou a fazer parte de uma estatística perversa e que ainda faz vítimas. Ao serem atraídos pela promessa de uma nova vida, os estrangeiros entram no país sem regularização migratória. Em situação de vulnerabilidade, são jogados no submundo da ilegalidade. “Eu fui atraído por uma ilusão”, lembra Zacarias. “Fui trazido para ser mão de obra barata”.

Zacarias não era mais um jovem com energia para encarar 14 horas de trabalho em uma máquina de costura. “Naquela época, a situação era muito pior. Hoje, os imigrantes estão mais fortalecidos. Existem organizações que ajudam a evitar que caiam nas garras do trabalho escravo”, conta ele. Foi uma dessas organizações que salvou a sua vida.

As coisas não haviam dado certo na oficina e ele estava, de porta em porta, vendendo saltenhas, um salgado típico da região andina. Mal dava para o sustento, e a situação ia de mal a pior. Até que um amigo o apresentou ao CAMI. Ali, foi acolhido. Teve assistência jurídica para regularização migratória e agora seus documentos estão em dia. Pela primeira vez desde a saída da Bolívia, passou a acreditar que era possível reconstruir sua vida. No CAMI, ele e outros imigrantes têm acesso a cursos de português, empreendedorismo, modelagem e gestão.

O ponto da virada aconteceu quando Zacarias propôs uma contrapartida ao CAMI. Ofereceu o que tem de melhor: uma incomparável capacidade de diálogo e argumentação. É o que ele faz até hoje, com amor e dedicação. Como agente social, visita oficinas de costura e leva aos imigrantes bolivianos informações sobre como podem acessar os seus direitos e fazer diversos tipos de cursos. Com isso, o CAMI ampliou seu relacionamento com a comunidade boliviana. Zacarias ajuda a fortalecer os vínculos do CAMI com os imigrantes em situação de risco, muitas vezes vítimas do trabalho escravo. “Hoje eu sou um homem realizado”.

Ele acorda, todos os dias, ao nascer do sol. Com sua companheira, Ruth Callisaya, sai pela Grande São Paulo em busca de oficinas de costura. É um trabalho de porta em porta, só que não mais para vender saltenhas. O que ele oferece, agora, é uma via de entrada para a dignidade e para os direitos humanos.

Conheça nosso Programa Combate ao Trabalho Forçado e ao Trabalho Infantil.

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