Algodão orgânico como herança

Manoel Aragão Ribeiro, mais conhecido como Seu Nézinho, nasceu e cresceu na comunidade Quilombola Lagoa dos Prazeres, em São Raimundo Nonato (PI) – nome escolhido há muitos anos pelo seu avô, fundador do quilombo. Aos 16 anos, começou o seu trabalho como agricultor junto com seus pais e hoje se orgulha de nunca ter precisado sair da zona rural.

“Sempre fui agricultor. Hoje, sou pai de três filhas e sempre mantive a minha vida, junto com a minha família, trabalhando na agricultura familiar. Mesmo com as dificuldades, hoje nós levamos uma vida tranquila.”

A família de Seu Nézinho nunca usou agrotóxicos e, mesmo sem saber, já produziam algodão de forma sustentável. Quando a crise econômica chegou ao Brasil o preço do algodão caiu, a produção diminuiu e trouxe dificuldades para os que viviam da agricultura familiar. Foi em 2010, com a chegada da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Algodão) ao semiárido, o plantio de algodão em consórcios reapareceu e Seu Nezinho viu ali uma grande oportunidade. Junto com o algodão passou a cultivar também milho, feijão, abóbora, melancia e gergelim e viu o resultado em sua renda.

Hoje, Seu Nézinho participa do projeto “Algodão Orgânico em Consórcios Agroecológicos”, liderado pela ONG Diaconia com o apoio de ONGs locais que levam assessoria técnica aos agricultores e agricultoras das regiões onde o projeto está presente e fortalecem a gestão comunitária. O Instituto C&A é parceiro dessa iniciativa, pois entende que a transformação da indústria da moda começa pelo campo.


Aperfeiçoando a técnica

A tradição de plantar sem agrotóxicos está na família de Nézinho há quatro gerações. Com o passar dos anos e o avanço tecnológico o processo se aperfeiçoou e, graças ao apoio técnico promovido pelo projeto, práticas prejudiciais ao meio ambiente, como desmatamento e queimadas para abertura de novas áreas de plantio, foram deixadas para trás. “Hoje, conseguimos cultivar uma área por 15 anos sem precisar desmatar para criar uma roça nova”, afirma. Aos 55 anos de vida o agricultor conta, com muito orgulho, que ainda está em sua segunda roça.

Para ele, o apoio técnico que recebe da ONG Caatinga, uma das parceiras da Diaconia responsável por desenvolver as famílias agricultoras na região e garantir que tenham suporte necessário, é fundamental para a sustentabilidade da iniciativa. “A assessoria técnica na comunidade ajuda muito. Mesmo com o conhecimento do agricultor, ter assessoria é muito importante e o projeto algodão veio para permitir mais esse recurso.”


A expectativa de uma boa colheita o motiva. Apesar da instabilidade climática, Seu Nézinho acredita nos bons resultados por conta do conhecimento das famílias envolvidase da assistência fornecida pelos técnicos. Entre as lições que coleciona desde que começou a participar do projeto, ele conta o que aprendeu sobre biofertilizantes, insumos naturais para a terra: “não é para matar a formiga, porque ela também tem um papel na terra. É apenas para afastá-la da planta para conseguirmos plantar.”
 

A tradição do algodão orgânico continua, isso porque a próxima geração da família pretende seguir o legado do pai. As três filhas de Seu Nézinho também trabalham na propriedade e, mesmo estudando em outras áreas, ele espera que elas jamais esqueçam da agricultura, meio em que foram criadas.


Coletividade e participação feminina

Com o apoio da ONG Diaconia, o projeto conta com um componente de justiça de gênero. Durante todo o processo, há rodas de conversas para entender as necessidades e, principalmente, contribuir para o reconhecimento e valorização do trabalho da mulher. Seu Nézinho concorda com a ação, segundo ele “a mulher sempre tem de estar presente”.

“O mundo que estamos vivendo hoje é um mundo de igualdades. Se é para ser uma coisa igual, então a mulher tem que estar dentro também, estar junto, buscar os direitos e conhecimento para que ela seja reconhecida como protagonista”, reflete. “Hoje, a gente tem falado muito de gênero, e para mim é muito importante mesmo.”


Sócio-fundador e atual presidente da Associação dos Produtores Agroecológicos do Semiárido Piauiense (Apaspi), Seu Nézinho entende a importância do trabalho coletivo na comunidade quilombola, reforçando suas origens e práticas tradicionais.

“A Apaspi foi ucriada com muita dificuldade. Não foi fácil, mas, por meio dela, nós adquirimos muito conhecimento”, diz. A comunidade recebeu vários benefícios por meio das associações, como cisternas, barragens, máquinas descaroçadeiras, roçadeiras, máquina de extrair óleo e transporte.

Engajado na prática da agroecologia, Seu Nézinho segue feliz trabalhando na sua terra. “Às 5h da manhã eu me levanto e já vou cuidar dos canteiros com a minha esposa. Vamos para o chiqueiro cuidar dos cabritos e depois a gente vai cuidar da roça”, conta. O seu sonho é viver bem, até seus últimos dias, na terra que era de seu avô.

“Com certeza meus pais estão orgulhosos, onde quer que eles estejam, porque esse sempre foi um sonho deles. Durante a vida toda eles produziram algodão”, relembra. Hoje, além de ser uma importante fonte de renda para ele e sua família, o algodão fortalece o vínculo com a terra e as práticas tradicionais de sua comunidade.


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São Raimundo Nonato, Piauí