Colocando trabalhadoras e trabalhadores em primeiro lugar

Durante décadas, a cidade de Piedras Negras, no México, foi conhecida como um dos polos industriais mais importantes do país. Esse desenvolvimento industrial motivou a criação de fábricas têxteis e de confecção, e facilitou a chegada de grandes fábricas automotivas internacionais na região. Parecia uma promessa de crescimento econômico e geração de empregos muito atrativa. O problema é que, com o passar do tempo, os empregos oferecidos não proporcionavam aos trabalhadores uma vida digna e plena. Além das longas jornadas de trabalho, surgiram os acidentes de trabalho, os baixos salários e uma infinidade de abusos trabalhistas, psicológicos e até sexuais dentro das fábricas.

A situação levou um grupo de trabalhadoras a se organizar para defender seus direitos e pensar num modelo de negócio que atendesse às necessidades das fábricas, como a produção em série e tempos de entrega precisos, mas que também tratasse as trabalhadoras com dignidade.

Visando romper o paradigma de que o modelo de negócio de uma fábrica não leva em conta o bem estar de seus funcionários, o CFO - Comitê Fronteiriço de Obreiros criou a fábrica “Dignidade e Justiça”. Nela, mulheres como Consuelo e Natália, que possuem grande experiência em confecção, desenvolvem suas habilidades e têm espaço para criar um modelo de trabalho funcional e respeitoso. 
 

“Nossa fábrica é muito pequena, são quatro ateliês independentes que se unem quando temos um projeto maior. Esta forma de trabalhar é muito mais flexível do que em outras empresas em que as trabalhadoras estiveram. Neste espaço, por exemplo, elas têm liberdade para se organizar e terem horários que lhes permitam estar com suas famílias”,   - Julia Quiñonez, coordenadora do CFO.

 

No ateliê principal, dentro das instalações do CFO, é onde trabalha Consuelo, uma jovem mãe. Desta vez, ao contrário de seus empregos anteriores, o seu ritmo de trabalho lhe permite passar mais tempo em casa e estar com seus filhos. Além da qualidade de vida, questões de saúde e bem estar também fizeram a diferença nesse novo emprego “Nas fábricas tradicionais, as trabalhadoras têm que estar sempre de pé, porque, ou as máquinas são muito altas, ou precisamos nos movimentar entre elas. Eles planejam o trabalho pensando nas máquinas, mas se esquecem das trabalhadoras e as longas horas de pé acabam se transformando em problemas de saúde”, explicou.

Consuelo, que junto com suas colegas confecciona uniformes, camisetas e até vestidos de Primeira Comunhão, foi uma das integrantes que mais contribuiu para este esforço. “Uma das coisas que eu mais gosto desta fábrica é que, além do trabalho, também temos cursos. Há pouco tempo, por exemplo, tivemos um curso sobre riscos à saúde, e nos explicaram com muitos detalhes como identificar as dores que sentimos e como proceder no caso alguma emergência deste tipo”, detalhou.

Além de Consuelo, também conhecemos a Natalia. Ela é designer de moda, trabalha em sua própria cada mas também faz parte da equipe de criadoras do ateliê,  “Estou há três anos no CFO e o vi crescer graças ao nosso esforço. Sem dúvida, conseguimos muitas melhorias, mas ainda precisamos de materiais como uma máquina para bordar. Muitos de nossos clientes são escolas e necessitamos desta máquina para poder entregar o que eles estão procurando”, mencionou.

Pouco a pouco, estes ateliês conseguiram captar mais e melhores clientes, além de pleitear condições de trabalho que são ideais para as pessoas que trabalham ali. Assim, as trabalhadoras de Dignidade e Justiça estão rompendo o paradigma e demostrando que é possível um modelo de negócio que priorize o bem estar de suas trabalhadoras.


Piedras Negras, Mexico