Uma indústria da moda sustentável é possível?

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Lee Alexander Risby, diretor da Filantropia Eficaz no Instituto C&A conversa com dois autores do relatório, o “O Futuro da Sustentabilidade na Indústria da Moda”. Na entrevista, eles discutem por que esta pesquisa é um alerta para a indústria. 

Especialistas de diferentes partes da indústria da moda desenvolveram um novo relatório com o objetivo de mostrar um ponto de vista honesto sobre o destino do setor - e o que é preciso ser feito para que se atinja um impacto positivo real em relação ao meio ambiente e às condições de trabalho dentro dele. 

As más notícias? Se a indústria se manter como está, a maioria dos especialistas acredita que a moda continuará a ser um mau negócio para as pessoas e o planeta. As boas notícias? Ainda há esperança. Com esforço, coragem e comprometimento eles acreditam ser possível um setor sustentável dentro de um período de apenas 16 anos. 

Lee Alexander Risby conversou com dois dos autores - Cornelia Daheim, da Future Impacts, e com Kacper Nosarzweski, da 4CF - para entender por que esse relatório marca uma bifurcação no caminho rumo ao futuro da indústria da moda.  

Lee: Antes de falarmos das descobertas, você pode explicar um pouco sobre a metodologia aplicada? Qual é o objetivo da avaliação de Delphi e como ela funciona? 

Cornelia: Delphi* é um método de previsão que reúne opiniões de uma gama de especialistas no assunto com diferentes formações. Ele é frequentemente utilizado para melhor compreender o futuro. Enquanto outras abordagens de pesquisa tendem a apresentar pontos de vista muito diferentes, sem resultados ou consenso claros, o Delphi permite um diálogo rico para que os especialistas possam pensar juntos sobre como o futuro pode se desenvolver.  

Lee: Já ouvimos muitas promessas e afirmações ousadas sobre sustentabilidade vindas da indústria antes. O que faz desse relatório diferente? 

Cornelia: É diferente pois, desta vez, apesar de tudo o que está sendo feito pela indústria para que esta seja sustentável, os especialistas dizem que essas atividades não vão longe o suficiente. Elas não nos levarão a um futuro sustentável. No entanto, se os esforços forem seriamente intensificados em cada uma das 14 áreas conceituais** apresentadas no relatório, os especialistas acreditam que seria possível alcançar uma mudança de paradigma para a maioria das estratégias num prazo de 16 anos ou menos.  

O método Delphi, aliado à clareza da mensagem - tanto sobre a situação atual como sobre as estratégias para alcançar um impacto positivo real - é o que torna esse relatório diferente. É tanto um alerta quanto uma chamada à ação. 

Lee: Como a indústria equilibra o desempenho que o mercado requer com a visão de criar um novo sistema sustentável?  Qual a importancia de se assumir uma abordagem de duas linhas de tempo? 
 

Kacper: Os especialistas estão pedindo uma revisão radical do sistema e da indústria de moda, mas também são realistas sobre a necessidade de um período de transição.   

A abordagem de duas linhas de tempo permite lidar com os problemas causados pelo sistema atual e a pressão do mercado por “mais, mais rápido, mais barato”, enquanto estabelecemos novos modelos de negócio que colocam a reutilização, a reciclagem e a circularidade no centro.  

Cornelia: Acredito que a abordagem com duas linhas de tempo é muito poderosa e clara. Por um lado, ela afirma que o que estamos fazendo não é suficiente e precisamos fazer muito mais e, por outro, que é viável. Não nos enquadramos em mensagens negativas focadas nas dificuldades e nas barreiras e, por todos os conceitos, realmente delineamos onde estão as oportunidades. Isso pode ser muito útil e é também um incentivo muito claro sobre o quanto tem de ser feito, mas que também o que é viável - de acordo com os especialistas. 

Lee: Considerando todos os 14 conceitos discutidos no relatório, qual o papel do governo e das autoridades? Pois, certamente com base nas tendências atuais e na experiência anterior, não podemos esperar que a indústria faça sua auto-regulamentação, ou podemos?  

Cornelia: Os especialistas salientam a necessidade de mais regulamentação - e mais clara - que promova e permita a sustentabilidade. Eles acreditam que uma variedade de incentivos com uma combinação de soluções, de cima para baixo e de baixo para cima, poderia ser posta em prática junto com a regulamentação, para que tenhamos uma abordagem do tipo “prêmio e castigo”.  

Lee: Como os conceitos propostos nesse relatório diferem da maneira como empresas e ONGs já trabalham hoje em dia? 

Cornelia: Enquanto cada um dos 14 conceitos não é totalmente novo ou desconhecido por si próprio, a diferença acontece pela abordagem do portfólio. O relatório reúne estas vertentes e apela para a mudança em uma série de domínios inter-relacionados, da política à conscientização pública, passando pelos relatórios de sustentabilidade e pela inovação técnica.  

O sucesso em uma área - por exemplo, fibras e inovação no processamento - não será suficiente. Precisamos ver uma ação coordenada em todos os campos de atividade. E onde hoje vemos sinais positivos de mudança, temos de garantir que essas estratégias sejam muito mais amplamente distribuídas e implementadas.  

Lee: Atualmente, apenas 8% dos consumidores se consideram conscientemente sustentáveis. Então, o que faz com que os especialistas pensem que uma campanha de conscientização global vai funcionar? 

Cornelia: Os especialistas acreditam que há uma janela de oportunidade neste momento, graças ao movimento Sextas-feiras pelo Futuro (liderados por Greta Thunberg), Extinction Rebellion e outros. A sustentabilidade é muito mais proeminente nos principais meios de comunicação do que há alguns anos e os consumidores mais jovens, em particular, exercem uma forte pressão pela ação. As empresas estão sentindo a pressão pela mudança, e estão mostrando mais boa vontade em fazê-la acontecer.  

A indústria da moda pode se beneficiar dessa maior conscientização para chamar a atenção do impacto negativo e peso do sistema atual. Uma mudança na conscientização do consumidor será fundamental para permitir uma transformação mais ampla e radical em relação à produção e ao comportamento de consumo. 


Lee: Os relatórios sobre sustentabilidade feitos nesses 20 anos de história não criaram muito mais do que um pequeno abalo em todos esses problemas ambientais e sociais que o planeta enfrenta. No entanto, o terceiro conceito delineado pelo relatório é o de “Relatórios altamente detalhados sobre sustentabilidade”. Talvez você pudesse esclarecer como isso se relaciona à criação de maior responsabilização e transparência para as empresas? 

Cornelia: A geração de relatórios de sustentabilidade é, muitas vezes, criticada como uma ferramenta de marketing e comunicação em vez de uma alavanca para conduzir a uma mudança real. O que os especialistas estão pedindo, no entanto, são relatórios altamente detalhados sobre sustentabilidade que sejam obrigatórios, transparentes e comparáveis.  

Eles devem ser ligados à tomada de decisões estratégicas dentro das empresas e ao valor dos acionistas. E as marcas também precisam demonstrar mais coragem e honestidade sobre o compartilhamento de suas falhas, barreiras e lições, não apenas seus sucessos.  

Kacper: Os Relatórios altamente detalhados sobre sustentabilidade também criam uma alavanca para investimentos. Muitas indústrias ainda estão nos estágios iniciais de percepção de que o que elas colocam em seus relatórios não financeiros afeta sua classificação de crédito e sua capacidade de acesso a financiamentos a custos razoáveis. Veremos um crescimento nesse sentido nos próximos anos. 

Lee: Como a indústria deveria usar este relatório? 

Cornelia: Um ponto de partida pode ser a criação de uma coalizão da indústria para impulsionar uma campanha de conscientização global. Este é o momento certo para fazê-lo e o sucesso criaria um terreno fértil para muitos dos outros conceitos descritos no relatório. 

Outras áreas onde a indústria pode fazer um abalo significativo são aquelas relacionadas à produção e às condições de trabalho - estas podem ser lideradas por meio de relatórios de sustentabilidade sérios e altamente detalhados, onde as marcas unem forças para comparar o progresso e pressionar por mudanças políticas.  

A abordagem com múltiplos conceitos oferece às marcas a oportunidade de eliminar as ações onde elas podem fazer maiores progressos, mais rapidamente. 

Kacper: Esse é um alerta e uma oportunidade. Se as pessoas à frente da indústria da moda não começarem a pensar em modelos de negócio completamente diferentes, há uma grande probabilidade de que alguém o faça. Os disruptores e as empresas estabelecidas precisam planejar novas abordagens agora, mesmo que se escondam atrás do Conselho de administração, por enquanto.  

 

Clique aqui e baixe o relatório “O Futuro da Sustentabilidade na Indústria da Moda”. 

 

* O estudo apresenta informações de um grupo de especialistas internacionais de moda e/ou sustentabilidade com diferentes formações. A principal abordagem foi a de um estudo Delphi (na forma de uma pesquisa on-line), complementado por entrevistas com especialistas e workshops presenciais, que geraram e refinaram os resultados das pesquisas. 

 

** 14 conceitos pró-sustentabilidade na indústria da moda: 

  1. Maior conscientização global 
  2. Fibras e inovação no processamento 
  3. Geração de relatórios altamente detalhados sobre sustentabilidade 
  4. Iniciativas orientadas para os trabalhadores 
  5. Alta concentração/cooperação 
  6. Responsabilidade ampliada do produtor 
  7. Salários na indústria da moda 
  8. Roupas como um serviço 
  9. Revolução da automação 
  10. Economia circular 
  11. Índice de sustentabilidade junto ao consumidor 
  12. Apresentação de modelos para revenda/segunda mão 
  13. Maioria das roupas produzida localmente 
  14. Regulamentações fiscais para aumento da sustentabilidade 

 

 

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